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Sobre o chá

cami2409 @ 17:43

2327590.jpg"... Sim é agradável porque desfrutamos uma dupla oferenda, a de ver consagrada, por essa ruptura da ordem das coisas, a imutabilidade de um ritual que criamos juntos para que, de tarde em tarde, ele se enquiste na realidade, a ponto de lhe dar sentido e consistência, e que, esta manhã, é transgredido e assume de súbito toda a sua forma - e também a sensação de que provamos, como provaríamos um néctar precioso, o dom maravilhoso dessa manhã insólita em que os gestos mecânicos tomam novo impulso, em que cheirar, beber, repousar, servir de novo, bebericar equivalem a um novo nascimento. Esses instantes em que se revela a trama da nossa existência, pela força de um ritual que reconduziremos com mais prazer ainda por tê-lo infringido, são parênteses mágicos que deixam o coração à beira da alma, porque fugaz mas intensamente, um pouco de eternidade veio de repente fecundar o tempo. Lá fora o mundo ruge ou dorme, as guerras se inflamam, os homens vivem e morrem, as nações perecem, outras surgem e breve serão tragadas, e em todo esse barulho e todo esse furor, nessas erupções e nessas ressacas - enquanto o mundo vai, se inflama, se dilacera e renasce -, agita-se a vida humana... Quando se torna ritual, o chá constitui o cerne da aptidão para ver a grandeza das pequenas coisas. Onde se encontra a beleza? Nas grandes coisas que, como as outras estão condenadas a morrer, ou nas pequenas que, sem nada pretender, sabem incrustar no instante uma preciosa pedrinha de infinito? ... Então, bebamos uma xícara de chá. Faz-se o silêncio, ouve-se o vento que sopra lá fora, as folhas de outono sussurram e voam, o gato dorme sob uma luz quente. E, em cada gole, se sublima o tempo..." A Elegância do Ouriço - Muriel Barbey

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